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DEPRESSÃO: A DOENÇA DA LENTIDÃO

  • 13 de ago. de 2019
  • 2 min de leitura

Atualizado: 31 de mar.

É uma enfermidade que pode provocar intenso sofrimento psíquico e desinteresse pela vida. Respeite e dê ouvidos a depressão.



Às vezes, temperamentos muito sossegados causam certo mal-estar na escola ou no trabalho, envolvendo sentimentos de inadequação ou ineficiência. Uma “doença da lentidão” envolve mais que mal-estar e impõe diferenciar serenidade de apatia, placidez de falta de energia. São cuidados obrigatórios no diagnóstico da depressão.


A prostração característica dos estados depressivos é oposta à correria inerente aos atuais modos de viver e parece contrabalançar a agitação da Doença da Pressa. Desde a década de 1990 os casos de depressão profunda estão aumentando, a ponto de a enfermidade ser considerada o Mal do Século XXI. Calcula-se que de 20 a 30% da população mundial pode sofrer da enfermidade, sem saber. E esta é a maior dificuldade – o desconhecimento das pessoas sobre a depressão. O quadro atual é bem complicado, pois além de intenso sofrimento psíquico, os deprimidos enfrentam uma série de preconceitos, sobretudo contra a demora na busca de soluções e a impotência própria à enfermidade. Até inicio da década de 1980, trabalhos sobre depressão mencionavam apenas a dor moral, relativa aos estados melancólicos, à tristeza profunda. Aos poucos, a antiga paixão triste incorporou o bloqueio de atividades físicas e psíquicas. Apesar de apresentar variações individuais significativas, a inibição do organismo é generalizada nos deprimidos, e se traduz como desinteresse pela vida.


Na depressão, a consciência e a motivação ficam bem comprometidas, perturbando a memorização, o rendimento intelectual e a atividade sexual. Tudo é feito com dificuldade e vagarosidade, exigindo esforço físico e mental além do normal. As alterações da depressão profunda são efeitos das transformações sócio ambientais das últimas décadas. A cultura atual não é mais regida pela norma disciplinar e afrouxou as amarras da autoridade repressiva, liberando fantasias sobre a realização dos desejos. Vivemos segundo uma lógica do “tudo ou nada” – podemos tudo para ser o que almejamos ser ou nos tornamos um nada. No entanto, a responsabilidade por erros, fracassos e perdas é sempre pessoal e difícil de compartilhar. Agora a depressão ameaça sujeitos aparentemente emancipados das interdições do passado, porém profundamente feridos pela separação entre o possível e o impossível. Nesse sentido, a depressão expõe uma tragédia da insuficiência. A lentidão depressiva demarca nossa enorme vulnerabilidade diante das pressões sociais atuais, para assumir e evitar os riscos inerentes a modos de ser supervalorizados: tornar-se pessoa vitoriosa, permanentemente ativa, em busca da realização de desejos e do prazer individual.


Autora Marisa Moura Verdade é Mestre em Educação Ambiental, Doutora em Psicologia, especializada em Psico-Oncologia, pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião do IP-USP. Autora do livro Ecologia Mental da Morte. A troca simbólica da alma com a morte. (Editora Casa do Psicólogo & FAPESP. 2006).

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